Quarta-feira, Setembro 26, 2007

Além do que se vê

Uma vida. Alguns países permitem a eliminação legal das quais cometem crimes hediondos. Talvez uma evidente e possivelmente, determinante pergunta, não foi estudada. A própria: seria isso, a solução?

Muitos acreditam que sim, afinal, agiríamos da mesma forma que atuou o criminoso, ao estilo de uma lei de 1730 a. C., uma das mais antigas. Outros argumentos como intimidação é bastante usado, enquanto isso, os países em que a pena de morte é legalizada, os índices de criminalidade continuam constantes ou aumentam. Há também quem diga que evitar-se-ia gastos na cadeia com esses criminosos, se tais fossem eliminados. Acontece que o processo de aceitação da morte de um indivíduo é bastante lenta e durante sua prisão temporária ou não, o criminoso está sujeito a tratamento especial, com cárcere protegido para evitar linchamento, apelações, vigias, sacerdotes, maquinário e carrascos, o que custa três vezes mais que um aprisionamento perpétuo.

Se se acredita que a solução da criminalidade de um país seja a morte, por que então vivemos? Ironicamente, talvez para assistirmos o crescimento de milhares de crianças sem estrutura familiar e educação desqualificada, para quando chegarem a idade adulta cometerem crimes e assim presenciarmos a sua morte
. O governo age dessa maneira, porque ir a fundo e tentar solucionar os problemas sociais do país é um trabalho bem mais árduo do que simplesmente tirar a vida de alguém. Um país que legaliza a pena de morte carece de condições morais para dizer quem merece viver ou não. Sem contar que nessas condições, pode haver injustiça.

Quando o assunto pena de morte é mencionado, há quem levante a mão e diga que é a favor. É fácil levantarmos a mão, enquanto alguém morre. É fácil concordar com tal barbaridade e agirmos, despercebidamente, como nazistas, que sempre foram condenados. Difícil é seguirmos o caminho mais longo e demonstrarmos ética. Pode ser difícil, mas é o que justifica a vida.


Ouvindo: Johnny Cash - Cocaine Blues

Domingo, Setembro 23, 2007

Tango ao meio-dia

Melissa sempre acordava às 7:48. Antes mesmo de abrir os olhos, roubava do criado seu mp3. Vivia música e a tudo que era possível fazer com tal, ela fazia. Levanta-se animada, depois de aberto os olhos, claro. Calça suas pantufas pistaches e atravessa o quarto, no escuro. Sempre esquecia de acender a luz. Banho, café e torradas. Algumas vaidades cotidianas e cruza a porta de sua choupana. Antes de descer as escadas, vira-se. Adorava sua casa, simples e aconchegante. Suspira e segue.

Para Cairo, mais um dia. Mais um dia de trânsito, de ver as mesmas pessoas, de sol, de trabalha cansativo. Estava cheio da vida, cheio de si mesmo. Mas enfim, acordou. Tropeçou em alguns problemas, lavou o rosto e foi-se, sem fome.

Era uma das primeiras a chegar, não morava muito longe do correio. E não, ela não enviaria uma carta a alguém, não hoje. Era onde trabalhava. Deu bom dia aos amigos e caminhou-se para o setor de triagem, onde tinha uma sala só para si, para ficar ali, trabalhando, ouvindo música e sonhando. Não precisava de mais nada, era o que pensava ela.

Após meia hora de trânsito, chega ao trabalho. Era sempre a mesma coisa, sempre atrasado. Odiava aquele uniforme amarelo e o boné esquisito. Respondeu indiferente aos bons dias e foi recolher as cartas. Havia algo de errado na separação. Irritado, retira-se.

Tango. Era o que tocava no seu mp3. Lembrou-se dos cinco anos de aula, jamais esqueceria. Fechou os olhos, começou a dançar. Só. Alguém bate à porta. Um toque grosso, nervoso. Ela continuava a dançar, surda em sua utopia. Ele abre a porta querendo gritar, reclamar, mas não. Tudo se submerge. Os problemas, as cartas. Ele olha fixo. Ela dança. Ele deita a cabeça meigamente, admirando-a. Ela dança. Solta a maçaneta, aproxima-se. Ela dança. Ele toca a sua mão e sem som, na sintonia mais perfeita, começa a dançar. Ainda com os olhos fechados, ela acompanha. O som ausente em um e presente em outro se torna um só. Corpos juntos, movimentos completos. Em cada alteração, um sorriso. Ele a vira, ela se vira. Ele a roda, ela roda. Ele a segura, ela se solta. Um passo e outro, confissão. Quente. A música torna-se suave e ele acompanha. Eles se aproximam mais, cada vez mais. Rodam a sala e fim. Ele a deita. Ela abre os olhos.


Ouvindo: Gotan Project – Mi Confession

Quinta-feira, Setembro 13, 2007

Vago

Castigo, só pode ser
Sempre tão constante e intenso,
o tempo todo

Os caminhos não se encontram,
não se cruzam
É a razão oposto ao coração
É a ação contrária à solução
É uma vida completa e não preenchida
Outra confusa e ao mesmo tempo tão decidida
É a paixão mal organizada
É o sentimento não

encontrado
É algo indefinido e sem sentido.

Sem sentido.