Domingo, Julho 29, 2007

Barretos

Jogos Regionais são competições de várias modalidades por região (logo, regionais!) que acontecem uma vez por ano. O que é uma pena. Sabe que pensando eu com os meus botões, juntamente com o Luis Carlos, vulgo Biro-Biro, chegamos à conclusão de que deviam ter quatro regionais no ano, um em cada bimestre. Seria divertido, só teria que sobreviver ao arroz milimetrado e aos colchões mal tratados e cheios de ácaros.

Dessa vez foi em Barretos. Bom, a escolha da cidade não me agradou muito, porque eu já fui incontáveis vezes pra lá e definitivamente, não vou com a cara da cidade. Mas é legal até, perto da escola onde a gente ficou tinha o ‘sandubom’ que eu fui só pra comprar água e um grupo de sanfoneiros e tecladistas que acordam 6 horas da manhã pra tocar apenas os mesmos dez segundos da mesma melodia.

Mas então, pra quem me conhece, sabe que eu jogo xadrez desde quando eu era pequena do cabelo liso e levemente gorda (?). E esse foi o quarto ano que eu fui pros regionais, já que antes disso eu não tinha resenha suficiente e nem equipe para tal. Sim, equipe. E não, não é um tabuleiro, onde há dois grupos de pessoas discutindo posições, lances e sacrifícios. Já pensou? Sozinha já me acontecem guerrinhas particulares, imagine assim. É de dar medo. Pois então. A equipe é formada de quatro tabuleiros e no meu caso são só mulheres de até 21 anos. Também tem o livre e o masculino, com essas respectivas categorias.

Parece que esse post vai ficar grande. Alguém se incomoda?
Que bom.

O clima de regionais começou quando a minha caríssima Ana Rothebarth, de Cuiabá, chegou em minha humilde choupana. No dia seguinte, 21/07/07 - sábado (show do Engenheiros do Hawaii em Franca. É, eu perdi), começamos a arrumar nossas malas, já com a querida presença do Grego, de São Paulo. A partida foi às seis horas da tarde, da praça central. Depois de uma longa e cansativa viagem de uma hora, com uma discussão filosófica sobre rotina, chegamos ao alojamento. Quarto feminino ao lado do quarto masculino. Entrei, arrumei meu cantinho, lamentei a sujeira. Logo após tive a feliz surpresa de ver meus amigos de Barretos que apareceram por lá. Também com a vinda do grande Teko, de Brasília e a do Crébim, de Barrinha. O ‘quarto’ feminino ficou uma belezura, cheio de gente. Todos com personalidades diferentes, pensamentos diferentes, cidades diferentes, que lindo.

Dormi. No domingo, não fiz nada o dia todo e mais tarde fui à lan house, matar as minhas enormes e insaciáveis lombrigas por mais de um dia sem computador. Uma pena que foi só uma tentativa de matá-las, já que eu fiquei apenas meia hora, o que me custou UM E CINQUENTA, um absurdo.

Rolou um papo sobre grupos filantrópicos e a educação do Brasil enquanto esperávamos o Grego em seu prazer-virtual. Logo, tomamos sorvete numa sorveteria nada barata também. Caminhamos até o Crébim ter uma idéia genial: pedir janta em uma casa de pessoas aparentemente bem formadas financeiramente. Acontece que, para nós, ninguém havia atendido e passamos despercebidos por um velho caseiro com um pedaço de pau. Que bom que ele também não nos notou.

Preparativos para a primeira rodada.

...

Então. Eu ia contar sobre cada dia, mas não vou lembrar do que eu fiz exatamente e vocês não devem estar com saco pra saber da minha vida estranha. Tá, falo só dos resultados por enquanto.

Segunda-feira – Guaíra 4 x 0 Batatais (com partidas não muito difíceis).

Terça-feira – Guaíra 2,5 x 1,5 Barrinha (o que não supriu minhas expectativas).

Quarta-feira – Guaíra 1,5 x 2,5 Sertãozinho (a equipe mais forte do torneio. Com uma partida emocionante da Ana, no tabuleiro 1, em que infelizmente ela perdeu – maldito tempo).

Quinta-feira – Guaíra 2 x 2 Araraquara (a decisão. Devíamos ter ganhado para garantir a prata. Lutei pra conseguir mais meio ponto, cheguei no ping, com aquele monte de gente ao meu redor, comentando e olhando. Eu batendo as pernas, nervosa. Mas não deu).

Sexta-feira – Guaíra 4 x 0 Bebedouro

Bons resultados, não? É, mas não o suficiente. Precisávamos que Sertãozinho ganhasse de 4x0 de Araraquara, mas eles desceram os tabuleiros, já entregando uma partida. Dae foi-se a esperança, que é a última que morre, mas morre.

Pois é, pegamos terceiro lugar. Não vamos mais comprar cenoura e bronze e um óculos de sol sexy pra irmos à Praia Grande, nos Jogos Abertos (que é a classificação dos Jogos Regionais, onde só comparecem as duas primeiras equipes campeãs). É, uma pena minha gente. Talvez aconteça desistência de uma das cidades, mas não gosto de ilusões, esperemos apenas.

Engraçado que eu comi um monte de trufas e não paguei nenhuma. Não gente, eu não sou caloteira, que é isso. Foram presentes! Uma do Teko, outro do Grego, outra do Passok e outra do Vivaldo. Ah, nota especial ao meu querido Vivaldo, que eu conheci depois de visitas em seu blog e conversas insanas pelo MSN. Ele me destruiu nos pings e como ele quase não gosta, empatou umas duas comigo. Aliás, direitos autorais reservados: a frase da esperança, lá em cima, é dele.

Lembro-me de um dia em que roubaram meus chinelos e começaram a dar ‘pedalas’ na minha
cabecinha no alojamento. Foi triste. Na quinta fomos à pizzaria, onde o garçom tinha cara de psicopata e cantamos parabéns para o Passok e o Oli sem um motivo especial. Tivemos a presença do insano Biro-Biro, de Matão (mas que jogou por Motuca), que levou um super cuecão das meninas do Judô.

Conheci pessoas. Revi pessoas.
No mais, foi isso. Tive momentos intensos, significativos, mas acho que faltou algo.

Acordar às seis amanhã, que delícia. Vai começar tudo de novo. Aula, trabalho, estudo.
E como em todo final de torneio, digo que vou tentar achar um tempinho pra estudar xadrez. Juro.


Foto: Da ponta esquerda, Rafinha, Grego, Cléber, Oli e Passok. Os homens/palhaços do xadrez.

Ouvindo: Avantasia – The Seven Angels

Sexta-feira, Julho 20, 2007

O Dia


‘E e, por que eu tenho pessoas que gosto tanto, tão longe?Por que conversas tão significativas por MSN?Por que eu não posso fitar seus olhos e dizer o quanto gosto delas?Por que, céus, por que eu não posso abraçá-las?Mais uma vez, eu tenho que reprimir um sentimento, não pode cultivar. Eu, eu queria ter dinheiro e liberdade pra fazer o que quisesse. Mas eu não quero dinheiro pra comprar o vestido que a moça da novela usa, que me importa isso?Eu quero é realizar meus sonhos, poder sentar na mesinha de um bar com eles e guardar cada instante. Eu trocaria a jóia mais cara por um momento assim, eu trocaria, e nem pensaria. Céus, não é justo.

Alguém quer me patrocinar nessa vida estranha?Eu pago quando puder juro!A gente parcela, sem juros de preferência. Você me faria rir mais que uma hiena. ’


Vocês lá, eu aqui. Mais de 450 km, seis horas. E isso nunca nos confortou, nunca foi o suficiente e não queríamos que fosse assim, sempre. Acontece que limitações não são nada diante de quem se gosta e a cada instante que eu imaginava que logo elas não existiriam, eu não conseguia me conter. O que era fato agora se desfez e parte do que tava acumulado, se cultivou. A corda arrebentou, o sol se acanhou e a minha vida transformou. Dezenove de julho de dois mil e sete (19/07/2007), o dia em que juntamos tudo numa coisa só. Cada instante, cada palavra, cada sorriso. O que antes, em revolta, eu gritava, agora em sussurro digo ‘como foi bom’. Sabe aquele abraço?Eu tive muitos, bem apertados. Sabe as conversas na mesa de algum lugar?Tive. Sabe aqueles olhares tímidos?É, eu tive. Sabe o silêncio, aquele silêncio barulhento que dizia ‘cara, eu to do teu lado’. Eu tive, mew. Sabe os sorrisos contidos e incontidos?Pois é.

Meio-dia. Eu sentada no banco da praça, sozinha. Incrível como imaginei várias vezes que fosse mentira, não acreditava. E o que parecia lenda, tornou-se substancial quando eu vi ao longe, alguém gritando. Eu ando, ou corro, não sei. Eu só fico olhando fixo, pro outro lado da praça. Quero chegar logo, quero ter certeza de tudo. Quero aqueles abraços. E eu os tenho, completos e significativos. Sabe aquele abraço que não tem espaço nenhum entre dois corpos, que os braços preenchem em forma de C alguém especial, aquele abraço confortante, que diz mil coisas em um único gesto?É, esse mesmo! Fotos, emoctions, letras, agora movimentos, expressões, vozes. Ficou tudo mais vivo. Sentir-se vivo é você experimentar a sensação do coração bater mais forte, de você não conseguir organizar as palavras pra dizer, de você tremer, de tanta adrenalina. É isso.

E morram de inveja. Eu joguei truco com a Juliana, que por sinal é muito boa. Eu disse muito?Coloca um x3 aí na frente. Eu sentei do ladinho da Sara, do ladinho. Eu andei de cavalinho com o Jota. Eu ri com eles, não, eu não ri, eu dei gargalhada. Cara, eu chorei de rir, é fato. Eu dei beijos estalados, aqueles que eu sempre mandava por MSN, corremos pela calçada da lagoa, mesmo sentindo muito frio e dores nos nossos tornozelos sedentários, nós pulamos pra livrar do frio em frente ao orelhão (não pára, não pára!), comemos bolo de cenoura que eeeeeeeeeu fiz, a Sara e a Juliana me expulsaram do meu próprio quarto e fizeram algo que eu ainda não sei o que é (não gente, não foi isso), eu ouvi o ‘ueba’ que o Jota sempre manda pra mim pelo MSN e ele também me ensinou a roubar, discretamente, com um espirro. Hoje eu vou lá roubar a tartaruga, será que alguém percebe?Também observei abismada a Juliana e a Sara tentando colocar um palito quebrado no nariz pra depois soprar, assim como os movimentos estranhos que as duas e o Jota conseguem fazer com a mão e com o rosto.Eu cantei música ruim com a Juliana, nós nomeamos os peixes da praça, sentamos na grama e eu joguei ela no Jota que reclamou o teeempo todo que tava pinicando, eu queria ter dado a luminária japonesa de trinta e nove reais que a Juliana gostou, eu tive aulas de botânica com o Jota, eu dei um par de brincos pra Sara e pra Juliana (sim, apenas um par), descobri que a Juliana quer fazer química, o que é uma pena, ainda acho que ela teria sucesso em artes.E eu conheci a Tia Silvia, a intermediária do nosso momento tão esperado e jamais esquecido.Um amor, uma mãe extraordinária e única, que preza imensamente o bem estar dos seus filhos e amigos deles.

Eu, nós, muitas coisas :D

E agora eu posso tomar leite com nescau todo dia de manhã na caneca que me ensinou o alfabeto e que café em inglês é ‘coffee’, posso ficar amassando o meu mais novo cão, o Pistache (por que o chinelo da Sara é pistache), também posso andar com o carrinho do cartão, que ta vindo pra Guaíra, e lembrar que a Juliana é super criativa e atua muito bem.Ver o suco de laranja que o Jota desenhou e o que ele escreveu no guardanapo da pizzaria e relembrar o quanto ele se expressa bem, o quanto ele me fez rir.Ler a pequena-enorme carta da Sara, escrita a lápis (que ela odeia) e jamais esquecer do quanto essa garota é especial, que atrás do rostinho tímido que eu conheci ontem, tem milhões de coisas que eu descobri há muito tempo, e descubro a cada dia.

Digo então,

Ju,

a gente mal conversava e acho que me arrependo disso. Você é fantástica, de verdade, como disse, adorei te conhecer.

Jotinha,

fofo como eu imaginei e engraçado como talvez eu não tinha imaginado (é, você se superou). U, doce, um doce.

Sarinha,

você é única. Não precisa se desculpar, nem dizer que você é estranha, eu entendi o seu jeito. Não se preocupe e você também sabe a importância que tem pra mim.

Sempre quando eu termino um texto, fica uma sensação estranha de que eu esqueci de algo, mas dessa vez o texto ta perfeito, o que falta é vocês aqui perto de mim. É longe, mas a gente dá um jeito. Um dia, foi pouco, mas expressivo. Eu digo, sem mais delongas, que eu realmente gostei de ter conhecido vocês, o jeitinho de vocês. Foi bom cara. Foi mágico, eu diria. Foi e ainda será. No final do ano eu to aí. E é sério.

E é naquele esquema, ‘enquanto houver vocês do outro lado, aqui do outro eu consigo me orientar’.


Nota: Luísa, você fez falta moça.

Ouvindo: O Anjo Mais Velho – O Teatro Mágico

Segunda-feira, Julho 16, 2007

Verde Lilás

Ela mexe o cabelo, fazendo charme e chamando a atenção. Ele olha, sorri e a admira. Uma terceira observa a situação e seus ombros caem como se alguém estivesse montada nela. Na verdade, alguém o fazia, mas apesar de ter que carregar a amiga, não conseguia arrumar forças, não era capaz, não naquele momento. Estava preocupada demais com seus pensamentos. Renata resmunga algo e diz para amiga sair de cima dela, não queria chamar a atenção, não daquele jeito e de novo. Ela sempre tinha que se esforçar para fazer os outros rirem, para que os outros se sentissem satisfeitos em estar ao seu lado, era como se ela tivesse essa obrigação. Enquanto isso, Bárbara, com apenas um movimento, ganhava todos os olhares. Todos e o único pelo qual Renata se interessava. Estava cansada disso, cansada.

Cássio ia todos os dias à cantina, só para vê-la. Ele não sentia fome, nunca tocava no que comprava, ele só a queria mais perto. Todos percebiam e ele nunca se importava. Sempre a olhava o intervalo todo, a procura de um olhar recíproco, mas as unhas de Bárbara eram mais importantes. Ela jamais o notou e quando viam lhe dizer algo, ria. Aquela obsessão o fazia perder horas de aulas e mais outras horas de vida. Ficava imaginando o dia em que trocaria a primeira palavra com a garota e às vezes até encontrava coragem para fazê-lo, mas sempre esitava. E ele se sentia mal?Quase sempre, mas nada o abalava, ele precisava dela e um dia a teria.

Ao fundo da sala, na penúltima carteira da terceira fileira, Renata copiava a matéria do quadro. Vez ou outra ela escorrega os olhos para a terceira carteira da segunda fileira. Lá está ele, doce e alienado. Sua perna direita sempre balançando no ritmo do lápis que batia na carteira. Uma voz serena, que ela sempre sonhava tê-la ao seu pé do ouvido. Cabelos escuros jogado formavam a perfeita combinação com os seus olhos verdes, que fitavam o tempo todo a primeira carteira da terceira fileira. Renata volta-se para Bárbara, que apesar de sentar bem a frente, nunca prestava atenção nas aulas. E por mais que tentasse, jamais tiraria boas notas. Seu mundo-cor-de-rosa era um tanto mais importante que uma viagem ao feudalismo, ou mesmo ao fascinante ciclo do nitrogênio. Renata balança a cabeça em sinal de discordância e se pergunta o que há de errado com ele, àquele da terceira carteira. Ela olha pra si. Cabelos escuros ondulados, calça jeans e o seu all star lilás. Pensamentos incontidos e meiguice oculta. Era rotulada de ‘legal’ e nunca havia sentido o toque de alguém. Será que eu sou a errada?Pergunta-se ela. Sua cabeça desaba, assim como as suas certezas. Pega seu mp3 e continua a copiar a matéria.

Último sinal, fim da manhã. Bárbara pega seu material mal tocado e atravessa a sala. Cássio nem se dá ao trabalho de arrumar seus cadernos, precisava alcançá-la. Apressa-se e vai atrás dela. Renata, calma e paciente, organiza suas folhas. No meio do corredor, um leve toque no ombro faz Bárbara virar-se. Ele, respirando ofegante, não consegue controlar as batidas do seu coração. Precisava dizer algo, gritava consigo mesmo. Seus pensamentos não se organizavam em palavras e a única coisa que conseguiu dizer foi:

__Oi

Bárbara dá um passo à frente, suspira e diz friamente:

__ Não me toque, nunca mais.

Continua seu caminho, fazendo com que uma lágrima escorra de um olho verde. Ele se apóia na parede, seu corpo torna-se pesado demais para suas pernas. Escorrega e senta-se desajeitado no chão. Uma voz incomum o chama, era Renata. Ela se agacha, juntando seus pés que pareciam grandes com o all star e devolve um papel que Cássio havia derrubado devido à pressa. Ele percebe o coração acelerado novamente, mas agora mais intenso, mais vivo, mais verdadeiro. Ele tentava buscar quem era ela, mas não encontrava. Pega o papel e um tanto nostálgico pergunta:

__De onde você surgiu?
__Eu estava o tempo todo aqui, só você não viu – responde ela.

Os olhares cruzam-se e o silêncio define o começo de algo.

Ouvindo: O Teatro Mágico – Soprano

Segunda-feira, Julho 09, 2007

Mais Menos


'Afinidade acontece. Um mesmo signo, um mesmo par de sapatos caramelo, um mesmo livro de cabeceira. Afinidade acontece entre seres humanos. A mesma frase dita ao mesmo tempo, o diálogo mudo dos olhares e a certeza das semelhanças entre o que se canta e o que se escreve. Afinação acontece. Um mesmo acorde, um mesmo som, uma mesma harmonia. Afinação acontece entre instrumentos musicais. A mesma nota repetidas vezes, a busca pela perfeição sonora e a certeza das similaridades entre um tom acima e um tom abaixo. A incrível mágica acontece quando os instrumentos musicais descobrem afinidades humanas entre si no mesmo instante em que os seres humanos descobrem afinações musicais dentro deles mesmos'

O Teatro Mágico


Ouvindo: a própria

Domingo, Julho 01, 2007

Uma Noite

Com dificuldade pela luz da janela, ela abre os olhos. Percebe quanto sua cabeça dói. Em meio a pensamentos confusos, a cama se movimenta. Paralisada, vira-se fechando um dos olhos e contraindo o lábio inferior, com medo do que veria. Suspira aliviada, era só uma amiga. Volta-se para o outro lado e se joga no travesseiro, pensando por um segundo que voltaria a dormir. Sua cabeça lateja de forma tão intensa que não consegue se lembrar da noite anterior. Resolve levantar.

Ergue seu corpo pesado e dolorido, permanece sentada, tonta. Apóia-se na cama, com a outra mão segura a cabeça, como que tentando não deixá-la sair dali. Aperta os olhos e adquire forças para sair da cama. Tropeça em uma latinha de cerveja, cai no chão. Pensa que jamais se levantaria dali. Arrasta-se e nota o chão úmido do quarto, assim como o tapete desarrumado. Entra pela porta totalmente aberta do banheiro. Mais latinhas de cerveja e um cheiro forte de rum. Não tem dúvidas sobre a sua dor de cabeça. Cansa de se arrastar. A pia serve de ajuda para se levantar e com a mão trêmula e fraca, gira a torneira. Algo lhe sobe pela garganta e boa parte do que havia ingerido descia agora, pelo ralo. Enxágua o rosto, a boca. Decide encarar alguém no espelho. Borrões de maquiagem e arranhões pelo pescoço. Precisava de um banho.

Abre a cortina da banheira e cores embaraçam-lhe as vistas. Roupas jogadas por todo o lado, roupas coloridas. Liga o chuveiro, empurrando as peças para o canto. Agora percebe que está nua. Já havia tirado a roupa? - pensa. Não importava, só queria purificar seu corpo, com aquela água gelada. Gelada? – pensa outra vez. Também não importava. Desliza o sabonete pelo corpo, devagar. Entre os onze condicionadores, escolhe um. Enxágua-se. Desliga o chuveiro. Alcança a toalha. Enxuga-se.

Enrola-se nela e caminha até o quarto. Sente-se um pouco melhor, só um pouco. A cama vazia a deixa mais uma vez confusa. Tenta chamá-la, mas falta-lhe um nome. Não fazia idéia de quem dormira ao seu lado. Confere o apartamento. Na cozinha, uma maçã mordida ocupa a pia, cheia de copos, garrafas, mais roupas. Na sala, uns sapatos. Percebe a porta entreaberta. Volta-se para o quarto, tomada por um sentimento estranho. Senta-se no canto da cama, apertando as pernas contra o peito. O vento da janela movimenta lentamente seus cabelos molhadas e ela se pergunta que lembranças teria da noite passada.


Ouvindo: O Teatro Mágico – Uma Parte Que Não Tinha