Domingo, Setembro 23, 2007

Tango ao meio-dia

Melissa sempre acordava às 7:48. Antes mesmo de abrir os olhos, roubava do criado seu mp3. Vivia música e a tudo que era possível fazer com tal, ela fazia. Levanta-se animada, depois de aberto os olhos, claro. Calça suas pantufas pistaches e atravessa o quarto, no escuro. Sempre esquecia de acender a luz. Banho, café e torradas. Algumas vaidades cotidianas e cruza a porta de sua choupana. Antes de descer as escadas, vira-se. Adorava sua casa, simples e aconchegante. Suspira e segue.

Para Cairo, mais um dia. Mais um dia de trânsito, de ver as mesmas pessoas, de sol, de trabalha cansativo. Estava cheio da vida, cheio de si mesmo. Mas enfim, acordou. Tropeçou em alguns problemas, lavou o rosto e foi-se, sem fome.

Era uma das primeiras a chegar, não morava muito longe do correio. E não, ela não enviaria uma carta a alguém, não hoje. Era onde trabalhava. Deu bom dia aos amigos e caminhou-se para o setor de triagem, onde tinha uma sala só para si, para ficar ali, trabalhando, ouvindo música e sonhando. Não precisava de mais nada, era o que pensava ela.

Após meia hora de trânsito, chega ao trabalho. Era sempre a mesma coisa, sempre atrasado. Odiava aquele uniforme amarelo e o boné esquisito. Respondeu indiferente aos bons dias e foi recolher as cartas. Havia algo de errado na separação. Irritado, retira-se.

Tango. Era o que tocava no seu mp3. Lembrou-se dos cinco anos de aula, jamais esqueceria. Fechou os olhos, começou a dançar. Só. Alguém bate à porta. Um toque grosso, nervoso. Ela continuava a dançar, surda em sua utopia. Ele abre a porta querendo gritar, reclamar, mas não. Tudo se submerge. Os problemas, as cartas. Ele olha fixo. Ela dança. Ele deita a cabeça meigamente, admirando-a. Ela dança. Solta a maçaneta, aproxima-se. Ela dança. Ele toca a sua mão e sem som, na sintonia mais perfeita, começa a dançar. Ainda com os olhos fechados, ela acompanha. O som ausente em um e presente em outro se torna um só. Corpos juntos, movimentos completos. Em cada alteração, um sorriso. Ele a vira, ela se vira. Ele a roda, ela roda. Ele a segura, ela se solta. Um passo e outro, confissão. Quente. A música torna-se suave e ele acompanha. Eles se aproximam mais, cada vez mais. Rodam a sala e fim. Ele a deita. Ela abre os olhos.


Ouvindo: Gotan Project – Mi Confession

12 comentários:

Tornado Bonsante disse...

Muiiiiiiiito,mais muito bom messmo Honey!
Clap clap clap

;D



.s2

Teko disse...

LAISIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIINHA!

Ao som de mi confession a intuição flui... a emoção emana e ao final tudo dá certo!

"As vezes um tango me vai melhor que um blues"

Vida Longa! Obrigado pela LUZ de cada dia!

Até Menininha de imaginação livre.

Sorte...muita sorte!

- JuH - disse...

Vou fazer aula de tango, pra encantar a avenida.
Mentira! HRIUHAIRUEHIUREHIUREH


Pistache é nome feio, feeeeio.
Do demôniiiiio! Feeeeeeeeioooooo.

URAHUIERHUIRHUAHREUIHRH

- JuH - disse...

Ah, siim.. como não?!


beijo-queijo;

C. Avgoustopoulos disse...

Muito bonito seu texto Lalinha!

Por uns instantes pude me ver ali, na figura do protagonista, que por alguns instantes deixou de lado tudo o que o aborrecia , simplesmente pq o que viu foi um reflexo de esperança. Ele ali começou a acreditar que alguma coisa poderia valer a pena.

Parabéns La!

JEAN PITER INZAGHI disse...

Muito bom! Bela narrativa, em dois olhares, que se torna um só.
Parábens! Ficou bem diferente!

No mais, amo tango! A propósito, creio que já sabe que sou argentino, da terra do tango!

Un abrazo chica!

OS Z ETES disse...

Nossa que tudo!
Bem... sei lá! Quente?
Impressionante com vidas completamente diferentes podem se interceptar com a dança e a música!
Eu fiz 10 anos de dança e parei por forças maiores. Esse texto me fez relembrar das viagens que fazia no momento em que calçava as sapatilhas e deixava o balanço das notas me levarem para onde nem sabia. E quando acordava, percebia qe não estava mais aqui!
Muito bom e muitas saudades!
Um cheiro e até!

Bruno disse...

Que boneténho, gostei da Melissa...

Mas...

Meu MP3 quebrou, porra!!! Tô com inveja!!!

Fran disse...

Ah, lah, muito bom!!! Adorei

Vc diz que é impossível e eu em minha fria desilusão concordo, + quem sabe não seja possível?

hehe

bjo

Chaplin disse...

Interessante texto, pena estar fora da realidade!!

Eu novamente!!

Chaplin.

iulo disse...

gracinha demais ;D

disse...

eu nunca teria imaginado uma funcionária do correio dançando tango.
e ela usa pantufas *_*
quero dizer, já ganha minha admiração usando pantufas (?) hahahah]