Aparentemente feliz, buscando pretexto pra sorrir, buscando pretexto pra não chorar. É assim que ele vive agora, fingindo não sentir o que sente. Parece que funciona, mas quando está sozinho e sem música, a tristeza vem de tal maneira que seus olhos incham. Então ele se esconde debaixo do travesseiro e três dias depois, quando seus olhos estão mais visíveis, ele retorna à vida mascarada e encara a todos com um sorriso amarelo. Mas a culpa não é dele, não.
Ela procura algo que a distraia. Na rua, observa tudo e a todos. Pega um pequeno galho de árvore e analisa. É uma angiosperma. A partir de então, começa a pensar sobre como essa palavra pode ser tão simples para a biologia e tão anormal no cotidiano. O poder da informação. E então ela começa a pensar que quer reunir toda a informação que puder, absorver toda experiência, errar e aprender, viver. Mas ela não pode parar, quer pensar sobre o andarilho sentado no meio-fio da calçada. Roupas rasgadas e sujas, barba por fazer, fome. E o olhar, perdido, triste. Ela queria mudar tudo isso. E se não pudesse fazê-lo sozinha, queria participar. Quer lutar pelo direito de quem não consegue tê-lo. Quer que as pessoas vivam bem, que consigam se relacionar com as outras e que tenham seriedade. E olhando o cachorro magro andando entre as pessoas, lembra que também quer felicidade a quem não consegue falar, mas que sente e consegue se expressar. Quer ajudar.
De repente ela pára e observa um lugar. Um lugar que caberia num quadro, como uma fotografia. Ficaria perfeita naquela parede de seu quarto. Mas ela não quer lembranças e então procura algum pretexto para embaçá-las por enquanto. Nada aparece. Uma lágrima começa a querer sair, ela se esforça para pensar em coisas que a distraiam, mas elas fogem. A lágrima escorre, e ela tenta não notar. Não enxuga, deixa secar. Deixa secar, junto com o seu coração.
Corri. De fora já pude ouvir a voz. Eu não tinha hora, não tinha dor. Estava pronta para receber toda a magia que aquele teatro poderia me proporcionar. Eu corri, e vi de cima um sujeito simples tocando um violão. Cantava música conhecida, tinha o rosto coberto, os sentimentos expostos. As cores invadiram o palco e eu corri mais um pouco. Queria ver de perto.
Enquanto meus sentidos estavam sendo invadidos, olhos não piscavam. Palavras e melodias no ouvido, pele arrepiada. Sorri em cada expressão, gesto, canção. Foram sorrisos bonitos, mesmo sem tê-los vistos. Foi sonho e realidade. Juntos.
Eu entendi. Não adianta chegar, achar bonito e se despedir. É além de palco, show. É carregar toda mensagem. Sorrir um pouco mais, criticar muito mais, é sentir mais. É expansivo, absorvido por quem sabe. É ser e estar.
Menina de vestido azul no quintal da frente vê um pé de manga. Pega uma tira a casca com o dente lambuza o rosto. Ali perto garoto solta pipa amarela e preta na rua e corre sem olhar para frente com seu boné xadrez e tromba com a menina. Caem no chão. A manga cai na terra e a pipa o vento leva. Ela com cotovelo ralado olha para ele com o dente quebrado. Ela sorri um sorriso laranja de manga e ele um sorriso vermelho de sangue.
Treze de dezembro, quatro dias após seu aniversário, seu Camilo encontrou uma carta dentro de um livro. Ainda no livro, e dentro da carta, uma foto. Ela tinha um cheiro bom, a filha. Lembrava bem daquelas mãos pequenas e tão brancas que deixou para trás há trinta e quatro anos. Saiu sem avisar, com os olhos fixos na calçada e uma lágrima escorrendo pelo rosto.
Ainda com a carta na mão, tomou o último gole de café. Os anos fizeram daquele rapaz covarde um velho arrependido. Talvez ainda covarde, pois nunca teve a coragem de voltar àquela cidade. Agora lhe restavam as rugas, o corpo não tão magro. As paredes (e olhos) azuis desgastadas daquela casa (e vida) vazia. Sem nenhuma lembrança, sem vestígio algum de uma vida feliz.
Era sexta-feira, um ótimo dia para mudar. Iria voltar, assim como havia saído. Com o violão preto nas costas, alguns livros, seu caderno de poemas e a roupa do corpo. Esperava por seu ônibus enquanto na televisão passava uma novela qualquer. Ele as odiava, sempre com seus finais felizes e impossíveis. Do outro lado da rua, um senhor ouvia Bob Dylan em um radinho de pilha. Deitou a cabeça no banco. Sorriu. Não queria deixar o passado em paz, mas um ônibus parou perto da calçada e o presente o fez abrir os olhos.
Desceu naquela mesma rodoviária, andou pelas mesmas calçadas. Virou a esquina e pôde ver a casa com a varanda que ele mesmo fez. Começou a se apressar, quase correr. Já perto, se aproximou da janela, devagar. Outros móveis, outra música, outros rostos. Eram mãe, pai e filha pequena. Dançavam juntos na sala, sorriam. Seu Camilo abaixou a cabeça e virou à esquerda. Talvez finais felizes existissem, mas não eram para ele.