Segunda-feira, Agosto 17, 2009

Do Concreto

Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Não amo. Amo.

Domingo, Agosto 02, 2009

Ida

Ele está apenas a alguns centímetros dela. Usa uma calça azul, rasgada em um dos joelhos, e a velha camiseta laranja de mangas longas, sua preferida, que cobre sua pele arrepiada. Ele aperta as pernas contra o peito e no chão, vê-se uma mochila grande com um zíper quebrado. Na outra ponta do banco, ela está com as mãos entre as pernas e algumas lágrimas nos olhos. Usa uma saia colorida para dias tristes e uma blusa preta desbotada. Os dois olham fixamente o horizonte, sem saber, ao certo, o que enxergam.


Silêncio.


Descendo as pernas até o chão, ele se levanta e estende a mão para ajudá-la. Ela aceita. Devagar, ela fica na ponta dos pés até alcançar os lábios dele, dizendo eu te amo sem nenhum som. Os corpos se encontram em um abraço forte, quase se atravessando, e juram não querer mais nada se pudessem ficar assim sempre. Ele beija as costas da mão direita dela e se afasta. Ela não se mexe. Ele dá passos para trás, enquanto a observa. Ela, não se mexe. Abaixando a cabeça, ele vira-se para frente. Ela ainda não se mexe, enquanto olha aqueles passos duvidosos pela rua. Viu-o levando parte de si naquela mochila, parte que faria falta.

Terça-feira, Julho 28, 2009

Quase Fim

_Chega.


Ela pega sua mochila e começa a enchê-la com o que ainda restava de si naquele lugar.


__Susan, espera.

__Esperar o quê? Esperar você decidir se quer ficar comigo ou com as putas que você traz aqui? Estou cheia disso, cheia de você me ligar em uma noite qualquer só pra foder comigo. Não é assim que as coisas funcionam, Jorge, e você devia saber disso. Não é assim que as coisas funcionam comigo.

__Eu te amo...

__Ama o caralho! Você só diz isso quando está muito bêbado ou quando está me perdendo. Não sei quantas cervejas você bebeu, mas eu estou indo embora.


Coloca a mochila nas costas e atravessa a porta, batendo-a com a força que teve para sair de lá. Caminha rapidamente, ofegante, a fim de sair logo dali, de não deixar o amor a alcançar. Sente o asfalto gelado e percebe que esqueceu seus sapatos. Ela não se importa, não se importa com os sapatos. Por mais que eles fossem os seus preferidos, vermelhos, eles já estavam gastos demais.

Domingo, Julho 12, 2009

Rotina

Aparentemente feliz, buscando pretexto pra sorrir, buscando pretexto pra não chorar. É assim que ele vive agora, fingindo não sentir o que sente. Parece que funciona, mas quando está sozinho e sem música, a tristeza vem de tal maneira que seus olhos incham. Então ele se esconde debaixo do travesseiro e três dias depois, quando seus olhos estão mais visíveis, ele retorna à vida mascarada e encara a todos com um sorriso amarelo. Mas a culpa não é dele, não.


O inferno é o outro.

Domingo, Junho 28, 2009

Contenção

Ela procura algo que a distraia. Na rua, observa tudo e a todos. Pega um pequeno galho de árvore e analisa. É uma angiosperma. A partir de então, começa a pensar sobre como essa palavra pode ser tão simples para a biologia e tão anormal no cotidiano. O poder da informação. E então ela começa a pensar que quer reunir toda a informação que puder, absorver toda experiência, errar e aprender, viver. Mas ela não pode parar, quer pensar sobre o andarilho sentado no meio-fio da calçada. Roupas rasgadas e sujas, barba por fazer, fome. E o olhar, perdido, triste. Ela queria mudar tudo isso. E se não pudesse fazê-lo sozinha, queria participar. Quer lutar pelo direito de quem não consegue tê-lo. Quer que as pessoas vivam bem, que consigam se relacionar com as outras e que tenham seriedade. E olhando o cachorro magro andando entre as pessoas, lembra que também quer felicidade a quem não consegue falar, mas que sente e consegue se expressar. Quer ajudar.


De repente ela pára e observa um lugar. Um lugar que caberia num quadro, como uma fotografia. Ficaria perfeita naquela parede de seu quarto. Mas ela não quer lembranças e então procura algum pretexto para embaçá-las por enquanto. Nada aparece. Uma lágrima começa a querer sair, ela se esforça para pensar em coisas que a distraiam, mas elas fogem. A lágrima escorre, e ela tenta não notar. Não enxuga, deixa secar. Deixa secar, junto com o seu coração.

Terça-feira, Junho 09, 2009

Para Raros

Corri. De fora já pude ouvir a voz. Eu não tinha hora, não tinha dor. Estava pronta para receber toda a magia que aquele teatro poderia me proporcionar. Eu corri, e vi de cima um sujeito simples tocando um violão. Cantava música conhecida, tinha o rosto coberto, os sentimentos expostos. As cores invadiram o palco e eu corri mais um pouco. Queria ver de perto.



Enquanto meus sentidos estavam sendo invadidos, olhos não piscavam. Palavras e melodias no ouvido, pele arrepiada. Sorri em cada expressão, gesto, canção. Foram sorrisos bonitos, mesmo sem tê-los vistos. Foi sonho e realidade. Juntos.



Eu entendi. Não adianta chegar, achar bonito e se despedir. É além de palco, show. É carregar toda mensagem. Sorrir um pouco mais, criticar muito mais, é sentir mais. É expansivo, absorvido por quem sabe. É ser e estar.


Domingo, Maio 24, 2009

Inocência

Menina de vestido azul no quintal da frente vê um pé de manga. Pega uma tira a casca com o dente lambuza o rosto. Ali perto garoto solta pipa amarela e preta na rua e corre sem olhar para frente com seu boné xadrez e tromba com a menina. Caem no chão. A manga cai na terra e a pipa o vento leva. Ela com cotovelo ralado olha para ele com o dente quebrado. Ela sorri um sorriso laranja de manga e ele um sorriso vermelho de sangue.